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Yajña, o ritual do fogo

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Pedro e Cristiano no yajña em 5 de junho de 2005, domingo, no Espaço Núcleo Sol, em Fortaleza
» por Pedro Kupfer

O yajña, o ritual do fogo, também chamado agnihotra, homa ou havana, é uma prática muito mais antiga que o puja. Faz parte do hinduí­smo mas nasceu nos tempos vêdicos, entre 6.500 e 4.000 anos atrás, quando o uso do fogo era essencial na vida dos homens. Temos evidências de que é algo muito antigo, mas não sabemos ao certo quanto. Também, não interessa, pois o fato de ser antigo não o torna melhor. As guerras e a escravidão são muito antigas, mas isso não as torna boas.

O altar vêdico era originalmente o mesmo lugar que se usava para cozinhar. O resto da casa se construí­a em torno desse fogo central. Tais fogos permaneciam acesos durante gerações e gerações. Aliás, isso acontece até hoje. Na Índia, tivemos a oportunidade de participar numerosas vezes dessa prática num altar cujo fogo não se apagava há sessenta anos. Ao mesmo tempo, as sociedades de antigamente mantinham acesos fogos comunitários, que serviam para unir as pessoas, pois estabeleciam uma ligação com os ancestrais.

Ângela Nardi em yajña na Índia em abril de 2006O fogo é um sí­mbolo muito poderoso, porque desvela a Consciência que subjaz em todas as coisas do mundo material, como a chama que se esconde na lenha. Por exemplo, o samagri, a mistura de ervas medicinais, doces e cereais que se oferece ao fogo, não tem unicamente o objetivo de purificar o ambiente. Junto com o samagri, a pessoa precisa queimar também seu ego; junto com o ghee, precisa oferecer ao fogo seus sentidos, suas emoções, seus pensamentos, não para destruí­-los, pois o fogo não destrói, senão para purificá-los, para sutilizá-los, e torná-los mais leves. E é aí­ que a prática toma outra dimensão. Então, o que torna o fogo sagrado não é o ritual exterior, mas a atitude com que o fazemos. O fogo é sí­mbolo da consciência universal. Seu culto é puro Yoga.

Após estudar e praticar intensamente o yajña, concluo que os vêdicos não eram politeí­stas. Eram panteí­stas ou, em todo caso, e embora a palavra possa incomodar alguns, monoteí­stas. Agni, Indra, Vayu e Rudra não são deuses separados, senão nomes ou formas de uma mesma e única entidade. Da mesma forma que os pranas do corpo, que têm cinco configurações e cinco nomes diferentes, mas são um só. Pessoalmente, prefiro ver os deuses vêdicos como formas de energia, representações simbólicas intuitivas das camadas da existência que transcendem o intelecto.

É impressionante a quantidade de significados que as palavras têm em sânscrito. Você pode fazê-las dizer praticamente o que quiser. Mas está valendo a citação abaixo. Não é possí­vel fazer uma única tradução dos mantras vêdicos. O melhor é lê-los no original. Melhor ainda, é sentir a vibração e o efeito que eles têm sobre o corpo sutil e a consciência. Além do mais, está escrito nos shastras: quem é você para interpretar o Veda? Você sabe em que sí­laba começar? E ainda: o Veda tem medo de pessoas com pouco conhecimento, pois elas podem feri-lo. Ou seja, que a tarefa é realmente difí­cil.

Tão difí­cil, que Svami Dayananda (1824-1883), um dos maiores estudiosos dos Vedas de todos os tempos e um dos arquitetos do movimento de independência da Índia moderna, descobriu até nove camadas diferentes de significados em cada hino. O princí­pio básico de interpretação dos Vedas, segundo Dayananda, é que as palavras dos hinos estão em estado fluido (yangika = derivativas). Ou seja, não têm apenas um significado único e estático (rudha). Donde podem interpretar-se de formas muito variadas. Ele foi enfático ao afirmar que todos os nomes dos deuses vêdicos se referiam ao mesmo princí­pio. Sri Aurobindo disse que, no campo da interpretação dos Vedas, Dayananda deve ser reconhecido como a aquele que descobriu as primeiras chaves de decifração. Ou seja, ele foi quem vislumbrou que, por trás do monte de entulho que eram as interpretações e traduções do século passado, havia algo mais. Removeu o entulho e encontrou uma porta. Arrombou a porta e morreu. Morreu envenenado por seus inimigos, antes de poder concluir a decifração.

Pedro e í‚ngela em yajña na Índia em abril de 2006Os mantras são de uma beleza arrebatadora. São tão profundos quanto belos, e não é raro chorar de emoção e felicidade ao fazê-los. Se fazem com uma cadência e uma forma de respirar especí­fica. Precisa igualmente conhecer algumas regras básicas de sânscrito e ter a técnica de vocalizar os mantras inteiros sem respirar.

As traduções feitas pelos sanscritistas ingleses e alemães da época da colônia podiam fazer sentido para eles, mas não fazem para nós. Eles queriam achar nos textos mitologia, politeí­smo e história e tentaram dar-lhes esse sentido. No Veda não há história nem politeí­smo. Aliás, no Veda inteiro não aparece nem sequer um nome próprio. O exemplo mais claro disto é Vishnumitra. Vishnumitra é um grande rishi, mas o nome não se refere a um sábio de carne e osso. Não é um autor de hinos. Nunca um rishi compôs um hino! Rishis são videntes. Rishi significa aquele que vê. Sabe quem é o rishi Vishnumitra? Seus próprios ouvidos! Vishnu significa “aquele que está em todas partes”. Mitra quer dizer amigo. Se refere aos ouvidos, pois o som vem de todas partes. Na fí­sica, a gravidade é Vishnumitra, porque a gravidade é o que nos sustenta aqui na Terra. Os hinos são desvelação. Os rishis não são escritores nem poetas. São yogis que viram os mantras durante suas práticas.
Pedro em yajña no Centro de Yoga Montanha Encantada
Agni (fogo) é a primeira palavra que aparece nos Vedas. Os rishis cultuavam o fogo porque sabiam que amplifica e purifica qualquer coisa que se jogar nele. Agni representa o Sol na Terra. O yajña é um ritual simbólico: alimenta-se o Sol para alimentar a vida, pois a vida não existiria se não houvesse Sol. Entretanto, Agni é mais do que o fogo: é a inteligência viva. Assim como quando você olha para uma pessoa na verdade não está vendo o indiví­duo, mas seu corpo, aparência, expressão etc, da mesma forma, quando seus sentidos captam o fogo, podem perceber Agni detrás dele. O fogo é sí­mbolo da vida e da inteligência. Agni é a vida e a inteligência. A aparência não é a pessoa, embora faça parte dela. A expressão desvela a pessoa; o gesto desvela o pensamento. Agni não é o fogo apenas. Lembre disso ao sentar frente a ele.

Por que fazer yajña? O sadhana externo serve e funciona como um guia para o iniciante. No iní­cio, as regras são úteis para nos dar orientação. Depois de algum tempo, se tornam desnecessárias. Porém, é preciso ficar muito atento a algo que pode acontecer: fazer os mantras automaticamente. É como diz o provérbio: “quando o sábio aponta para a lua, o tolo olha para o dedo”. Não olhe para o dedo! Se você se flagrar fazendo os mantras automaticamente, sem ter presente o significado nem prestar atenção aos efeitos vibratórios, cuidado! Não esqueça que para que a prática seja mesmo Yoga, você precisa estar consciente e presente o tempo todo na experiência, da mesma forma que você está (ou deveria estar) atento quando lê isso. Não perca a consciência. Desligue o automático! Observe-se: você está atento? Está lembrando neste momento da sua própria existência? Está consciente da sua respiração enquanto lê?

Preparação para yajña em 5 de junho de 2005, domingo, no Espaço Núcleo Sol, em FortalezaEnquanto o sadhana de Yoga se faz individualmente, e funciona da pele para dentro, o yajña é uma prática coletiva. Quanto mais gente, melhor. É uma prática familiar em que a presença da mulher é imprescindí­vel. Rama, o herói do Ramayana, não pôde fazer yajña durante o tempo em que sua esposa Sita esteve sequestrada nas mãos do demônio Ravana. Os sannyasins, yogis que renunciaram à vida em sociedade, não podem fazer yajña, pois não têm casa. Não tendo casa, não podem ter cozinha. Sem cozinha, não há fogo. Nem yajña.

A rigor, se faz yajña duas vezes por dia, ao amanhecer e ao entardecer. O yajña deve começar entre 25 minutos antes e 25 minutos depois da hora do nascer ou do pôr do Sol. Isso porque, para os hindus, o dia não começa à meia noite, senão no horário sandhya, quando o sol nasce. A prática completa leva uns 40 minutos. Recomenda-se tomar banho antes de começar. Para fazer yajña se precisa um agnikunda ou havankunda, um recipiente onde você fará o fogo sem correr o risco de incendiar a sua casa. O agnikunda pode fazer-se com cinco camadas de tijolos empilhados, caso você tenha bastante espaço. Deve estar sempre orientado para leste, ser quadrado, e medir internamente um cúbito de lado e meio cúbito de profundidade (37 x 37 x 18,5 centí­metros). Se você não tiver espaço para construir um yajñashala, o local onde se faz o ritual, pode usar uma bandeja de cobre. Na Índia se acham recipientes de cobre, construí­dos seguindo medidas especí­ficas. Mas como a Índia não é logo ali na esquina, e talvez você não planeje ir para lá tão cedo, faça o fogo do jeito que o seu bom senso indicar.

Preparação para yajña em 5 de junho de 2005, domingo, no Espaço Núcleo Sol, em FortalezaA madeira que se queima deve ser aromática e estar bem seca. Não use madeira pintada, ou de caixas ou móveis desmontados. Na Índia se usam madeiras como tulsi, rudráksha, banyam ou pippal, mas, sendo impossí­vel achá-las aqui, pode usar sem problemas galhos de pinheiro, mangueira ou eucalipto. Prepare a lenha cuidadosamente antes de acender o fogo. Entretanto, se você não tiver agnikunda, nem lenha, nem ghee, nem samagri, nem companhia para praticá-lo, poderá mesmo assim fazer yajña. Só basta ter vontade de fazer os mantras e praticá-los com o coração aberto. Pessoalmente, já fiz yajña mentalmente sobre aviões, barcos, trens e carros. Obviamente não se compara à sensação de estar presente frente ao fogo, sentindo aquele calor e aquela vibração, mas mesmo assim é uma experiência muito forte. O que realmente interessa é a atitude como que se faz:

“Quando, no fogo da Suprema Realidade, no qual até o mais absoluto vazio se dissolve, os cinco elementos, os objetos dos sentidos e a mente são vertidos, usando a consciência como colher, isso é o homa (yajña) verdadeiro.”
Vijñanabhairava Tantra, verso 149, p. 137.

Preparação de samagri para yajña em 5 de junho de 2005, domingo, no Espaço Núcleo Sol, em FortalezaO fogo simboliza a presença da luz e do sagrado. É um verdadeiro ser vivente que você alimenta com três tipos de oferenda: gravetos, ghee e samagri. O samagri é uma mistura cuja composição varia, mas que contém cereais, ervas medicinais, flores, frutos, resina de incenso, perfume, açúcar e ghee, ou pelo menos alguns desses ingredientes. Mas não esqueça que, junto com as oferendas, e ainda muito mais importante que elas, é oferecer, como já dissemos, os sentimentos, os órgãos dos sentidos e da ação, o pensamento e a consciência, não para queimá-los no fogo, senão para purificá-los, para torná-los mais sutis. Ao mesmo tempo, visualize que na presença do fogo você desintegra tudo o que não quiser guardar dentro: emoções, pensamentos ou lembranças de experiências que não forem totalmente positivos. Uma pequena lista de sugestões das coisas que você pode purificar no fogo do yajña: o ambiente em que você vive; os relacionamentos com os seus pais, amigos, filhos, cônjuge e com você mesmo; os elementos do seu próprio corpo; a sua prática e a sua meditação; as suas emoções e sentimentos; o pensamento; a intuição; o corpo sutil, as nadis e os chakras; a sua alma.

Pedro e í‚ngela em yajña na Índia em 2005Como funciona psicologicamente o yajña? Igual ao antar mouna: você substitui os samskaras ruins por outros bons. Repetimos o sutra de Patañjali:

“Quando surgirem pensamentos indesejáveis, estes podem ser vencidos convivendo-se com seus opostos.”

Precisamos conhecer a tradução, ou pelo menos ter presente o significado dos mantras, pois eles têm esse objetivo: limpar, purificar e fazer uma resignificação dos conteúdos da consciência. Pois a cada vez que você diz svaha, que significa, entre outras coisas, “tudo está perfeitamente bem”, você se reprograma para que, de fato, tudo fique perfeitamente bem. Svaha também significa “ofereço a oblação”.

Os mantras devem pronunciar-se lenta e claramente: uma só exalação para cada mantra, respeitando as vogais curtas e longas, estas últimas representadas pelo acento. As oferendas se vertem no fogo a cada vez que se diz svaha. Quando se faz mantra mentalmente durante o pranayama, a prática recebe o nome de prana yajña, sacrifí­cio (sacralização, aliás) do prana. Esses mantras são expressão da lei e da verdade universal (dharma e rta) e servem para harmonizar-nos com elas. Formam parte da essência do ser humano e todos podem fazê-los, pois não estão limitados por fronteiras temporais ou culturais. Valem para todos os homens em todos os tempos, e nos revelam a nossa mais profunda natureza.

(continua…)




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