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O Código Turla » entrevista com Renato Turla à Prana Yoga Journal

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PYJ: Quais foram as primeiras mudanças que o Yoga trouxe í  sua vida?

Na realidade não ajudou muito, porque eu já tinha uma vida boa do ponto de vista mental e espiritual. Seguramente desenvolvi a capacidade de ver uma pessoa, de senti-la antes dela falar. Nem sempre, mas em 80% dos casos sim, isso ocorre. Tenho um sentido de intuição muito desenvolvido, e uma maior claridade na forma de compreender de maneira muito rápida. Na vida normal, não eu gosto de ir a certo lugar, prefiro outro. No trabalho, o mesmo. Quero um contato mais profundo comigo mesmo. E se isso produz no corpo e na cabeça um estado de alegria, um estado de tranquilidade, e é possí­vel transmitir isso a alguém que esteja próximo. Sem falar. Mas se há algum problema, as pessoas que nos circundam também sentem esse problema. Esta é uma razão para render-se a si de maneira boa. As pessoas que vivem próximas sentem.


Renato Turla ensinado


PYJ: Como decidiu aprofundar sua prática de Yoga, focar apenas no Yoga. Como foi essa estrada até chegar ao seu próprio conceito de Yoga?

Renato Turla praticando virabhadrasana ANão se pode dizer como eu pensei. É uma evolução natural. Há quem comece a prática em um ní­vel espiritual, mental e fí­sico e cresce. Há outros que têm um ní­vel diferente, mas sempre vão crescer. Se não se quer nada para si, a tendência é um maior crescimento. Ao contrário, se pensar que terá tudo diferente, não terá nada e estará sempre no mesmo ní­vel. Esse é a profundidade. É simplesmente abrir-se í  prática, mas não porque se deva, mas porque se sente que é assim. Yoga é naturalidade. Eu não acho que o Yoga verdadeiro seja o da Índia. No Brasil há o Yoga brasileiro, assim como há um italiano e há em todo o mundo. Para mim, o Yoga é como uma corrente astral que se localiza em mais de um lugar da terra, do globo. Eu não sei o aprofundamento. É uma evolução natural, porque se trabalho com uma área do meu corpo em uma postura, sinto que a postura fala comigo. Você irá utilizar um outro lado do corpo, mas mais profundamente. Se a técnica está de maneira alta, o pensamento vai de maneira alta, porque a técnica é filha do pensamento. O pensamento vai modificar-se com o asana que se modifica. O asana é muito importante porque serve para modificar o pensamento. Já que o asana é como uma estátua que respira, que representa a sua personalidade, não se pode ver o asana como um corpo que é estúpido, como uma estátua imóvel. Porque essa estátua acompanha o movimento da terra, tem a sua vida, personalidade, sentimento. Não é importante para mim saber o quanto mudei, porque não se pode pensar na quantidade. Eu era de uma maneira naquele determinado momento, hoje sou assim.


PYJ: A sua prática pessoal mudou muito?

A minha prática pessoal naturalmente mudou muito. É normal que mude, porque se não muda, é a mesma, sempre a mesma sensibilidade, o mesmo todo.


Renato Turla em parivrtta parsvakonasana


PYJ: Seu método em workshops é muito preciso, nas passagens harmônicas. Explique como é este método.

Renato Turla em utthita trikonasanaAs passagens harmônicas não são um método, e sim uma evolução natural. Se eu faço um asana e depois um outro, há então um espaço que separa um asana do outro. Por que não praticar um asana, sair do mesmo e entrar no próximo de maneira harmônica, elegante, fluida? Essa fluência que separa duas posturas é elegante, não tem distração. É certo que o asana seguinte será mais elegante e vem imediatamente dentro de mim. Isso ocorre de forma boa quando se conhece muito, quando se está em um ní­vel alto. Porque não se tem tempo de corrigir o corpo, de titubear se está correto ou não. É o tempo de ver o corpo que trabalha num estado, ou, como se diz em francês, déjí  vu, e como se está do lado de fora a observar-se, a emoção que dá isso. A passagem harmônica é filha de todo o trabalho. É como um prêmio. Não é uma invenção, não é uma mágica, na realidade existe em todo o sistema, em toda prática. Mas existe de uma maneira diferente. Por exemplo: de parivrtta trikonasana posso fazer virabhadrasana I e II, volto para o trikonasana, depois paro e observo o próximo asana. Por que não passar diretamente? A sequência não é importante, porque posso ficar 20 segundos num asana, assim como posso ficar 20 minutos. O tempo vai terminar quando a cabeça sente que a minha harmonia está rompendo, e se a onda harmônica começa a variar, não posso mais segurar no asana. Devo estar lá e resistir com força, devo sentir a natureza harmônica do meu movimento e ter a harmonia enquanto é harmonia, porque quando a mesma se modifica e deixa de ser, eu perco o tempo. Dessa maneira, não é resultado de um asana ou dois, é o resultado de todos, que fazem uma única estimulação, que compreende a harmonia do todo, a segurança, porque se não há segurança, não há evolução, não se tem tempo de pensar, e quem não pensa, conhece. Agora, se não pensa, tem somente tempo de escutar. E se, ao escutar, sente-se o corpo, o corpo nunca pode titubear, nunca deve mover-se mal ou com força, não, é preciso fluidez, a única grande fluência. É essa apresentação do Yoga com elegância.


Renato Turla em virabhadrasana APYJ: Tal fluência que você menciona não é o principal princí­pio do Vinyasa?

Não conheço Vinyasa. A fluência é filha de uma grande precisão, de total precisão. Não é que isso vai nascer para criar harmonia, vai nascer de um estudo muito profundo. É como uma orquestra. Antes de começar, o violino, a trompa, todo mundo se senta com seu instrumento. O maestro faz com que violino entre em sintonia com o piano, com o violoncelo, para que se escute não somente a regularização de um instrumento em particular, mas sim a sinfonia.


PYJ: Você está focado apenas em Hatha Yoga ou tem outros focos, como o mantra?

O mantra não me importa, porque muito se fala de mantra como algo mágico. Eu digo que o mantra é mágico, eu sinto a magia. A magia do mantra está no fato de escutar como um movimento se relaciona no corpo e não pelo simples prazer de escutar uma vibração, porque sinto mais vibração num canto gregoriano ou ao som de Tchaikowski. A música dá emoção. Mas o mantra em sua origem tem a condição de mudar.


PYJ: Você pratica meditação estática?

Nunca decido: hoje eu pratico meditação. Se o meu corpo sente que é necessário, eu pratico a meditação. Mas não se pode ensinar, porque meditação é um estado. Não vou entrar na alma de ninguém e nem aconselhar o que comer ou não comer. Isso é muito importante.


Renato Turla em bhairavasana


PYJ: Quais são seus projetos?

Meu livro Harmonic Passengers foi escrito para estudantes, tem uma parte em inglês, outra em italiano. Um livro para mim é uma novidade. Meu projeto futuro é estar na minha escola e praticar.


PYJ: Algumas pessoas te chamam de Da Vinci do Yoga. O que você acha disso?

Eu rio, mas fico contente.


Turma em Fortaleza (CE) de 7 a 10 de agosto de 2006
Turma em Fortaleza (CE) de 7 a 10 de agosto de 2006




www.eyoga.com.br

Entrevista originalmente publicada na página 124 da edição nº 001, de dezembro de 2006 / janeiro de 2007 da revista Prana Yoga Journal.




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