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Mente quieta e coração tranquilo – entrevista com Maria Laura Garcia Packer


Maria Laura Packer meditando no Ananda Retreat Center» por Giovanna Sampaio

DN Viva – Ao contrário do que muitos pensam, meditar não é parar de pensar. Favor descrever como ocorre a prática da meditação.

Meditar não significa parar de pensar e sim cessar as ondas incessantes da mente.

A mente pode ser comparada a um lago cristalino e tranquilo (quando está serena) e agitado, com ondas constantes (quando está intranquila). Meditar significa perceber essas ondas, seus movimentos e reações, e procurar acalmar até que cessem os pequenos movimentos na superfí­cie da mente. É como perceber os movimentos das ondas do lago. Quando este está agitado, não podemos contemplar a beleza existente no seu interior. Mas, quando ele está calmo, reflete o brilho que vem da sua profundidade.

As ondas da mente são as impressões deixadas lá dentro de experiências passadas. Elas vêm em forma de pensamentos, e um pensamento se liga ao outro de forma ininterrupta, através de associações da memória.

Meditar significa criar um espaço entre um pensamento e outro para se perceber o que há além do pensamento, pois a ní­vel do pensamento se encontra o ego, mas além do pensamento está o Ser. Esse processo se inicia acalmando as ondas mentais, reduzindo o número de ondas na mente, através de técnicas que favorecem a concentração, ou seja, que conduzem a mente a uma única direção. A reorientação da mente para o foco de concentração é o meio de acalmá-la, de serenizá-la, a ponto de criar um espaço entre um pensamento e outro, até que nenhum outro pensamento ocupe a mente, exceto o pensamento-objeto de concentração.


DN Viva – Quais os seus benefí­cios observados no organismo (corpo e mente)?

Os benefí­cios da meditação são muitos, e hoje, com o avanço da ciência, tem-se descoberto muitos efeitos terapêuticos nos campos curativo e preventivo.

Os benefí­cios no plano fí­sico incluem:

  • redução da pressão sanguí­nea
  • libertação das tensões musculares no corpo
  • diminuição dos batimentos cardí­acos
  • redução do ritmo respiratório
  • redução do ritmo metabólico (hipometabolismo)
  • aumento das ondas alfa no cérebro
  • diminuição no sangue do ní­vel de ácido láctico
  • redução do consumo de oxigênio
  • redução da secreção do suco gástrico (evitando úlcera)
  • diminuição da ação do estresse no organismo e dos sintomas a ele relacionados
  • controle do sistema nervoso autônomo
  • domí­nio de ví­cios
  • superação de sensações fí­sicas de dor
  • relaxamento do corpo fí­sico
  • melhoria da saúde, da vitalidade e do sentimento de bem-estar geral
  • melhoria da nossa capacidade de enfrentar situações estressantes
  • promoção da capacidade de resolver melhor os problemas, com mais serenidade e calma
  • possibilidade de liberar e lidar eficientemente com as emoções negativas de uma forma mais construtiva
  • possibilidade de evitar reações negativas e os efeitos do estresse futuro


Os benefí­cios mais sutis são:

  • profundo senso de paz
  • sentimento de união e integração
  • uma mente mais consciente a cada momento
  • equilí­brio mental e equanimidade
  • aumento da concentração
  • lapidação do ego
  • acalmar das emoções
  • tranquilização da mente
  • abertura para uma compreensão maior sobre a realidade da vida interior
  • despertamento dos nossos sentidos internos, abrindo nosso campo da imaginação, intuição e discernimento
  • desenvolvimento dos canais de cura
  • aumento do campo de visão interior, num desabrochar da supraconsciência
  • aumento do quociente de luz de nossos campos energéticos
  • limpeza de toda a estrutura celular de lixo, poluentes, emoções ou lembranças negativas
  • recuperação da estrutura celular, deixando-a sadia
  • regeneração das células, criando uma saúde vibrante e radiosa
  • criação de um campo eletromagnético de proteção em volta de nosso ser



DN Viva – Como aprender a lidar com as distrações da mente?

Aprender a lidar com as distrações da mente é a cerne da meditação. Não se desencoraje quando as distrações aparecem em sua mente. Quando você se aquieta para meditar, é comum emergirem pensamentos, imagens, ansiedades e preocupações na mente. Ao aquietar a mente, você se torna mais consciente dos pensamentos que já estão lá, mas que estavam despercebidos porque o seu foco era externo. No momento que você foca internamente, você observa o constante fluxo dos pensamentos com maior percepção.

Existem muitas formas de se lidar com as distrações:
1) ignorar os pensamentos que vêm;
2) reconhecê-los e deixá-los ir;
3) fazer um acordo para dar atenção í  eles assim que você concluir a meditação;
4) questioná-los por alguns momentos, perguntando por que eles têm que aparecer exatamente agora;
5) se entregar í s distrações temporariamente (com consciência), dando a elas a sensação de vitória;
6) tentar não forçar os pensamentos a irem para fora, mas apenas deixá-los ir;
7) evitar a identificação com tudo que vem, sabendo que tudo é transitório – assim como vem, vai.


DN Viva – E como alcançar a atenção plena sem ansiedade, estresse, etc?

A atenção plena se conquista no dia a dia, com os afazeres comuns da vida. A plena atenção é a alma da percepção consciente e ela dá a tranquilidade que necessitamos para uma vida com qualidade, como também prepara a mente para a meditação.

A meditação é um processo de acalmar a mente. Paz e estresse começam na mente. Quando a sua mente está serena, você se sente em paz. Você perde a sensação de separação e isolamento. E serenizar a mente é trazê-la para o momento presente.

O primeiro passo para a meditação é prestar atenção. Prestando atenção, ou ampliando a percepção, começa-se a meditação. A plena atenção é a alma da meditação, destinada a acalmar a mente e abrir o coração para a verdadeira percepção interior.

A chave para a meditação é a firmeza da atenção. A meditação é um trabalho de amor no qual, em todos os momento, dedicamos uma atenção sincera í  nossa situação, fortalecendo e aquietando a nossa vida interior.

Focalizar a atenção na respiração talvez seja o mais universal tema da meditação. Devemos aprender a focalizar a atenção cuidadosamente na respiração, e, í  medida que sentimos cada respiração, podemos perceber como ela se move no nosso corpo. Não tentamos controlar a respiração, apenas observemos o seu movimento natural, assim como o porteiro observa aquilo que passa pela porta. A respiração pode tornar-se um grande mestre, pois está sempre em movimento e em mutação. Nesse simples respirar, podemos aprender sobre a contração e a resistência, sobre a abertura e o desapego. Podemos aprender a viver sem resistência e estresse.


DN Viva – Sabe-se que meditar não é uma coisa nova e diferente que precisamos aprender, pois trata-se da volta ao estado mental simples e sem expectativas. Já tem sido observado um maior interesse das pessoas pela prática da meditação? (caso a resposta seja positiva, relacione as causas dessa busca).

A meditação é muito antiga, datando de tempos imemoriais. Todas as tradições antigas usavam-na como meio de adentrar na consciência e perceber o que os sentidos são incapazes de alcançar.

Nos nossos dias tem-se observado uma procura muito grande pela meditação, acredito que devido a uma necessidade urgente de resgatar o contato com a nossa essência interior. Pela meditação, diminuimos o grau de separação com nós mesmos e criamos uma conexão com aquilo que realmente somos.


DN Viva – Aprender a trabalhar as próprias limitações usando o que descobrimos de melhor em nós é o primeiro passo?

Sim, o primeiro passo é resgatar aquilo que existe de mais puro em si mesmo. Não precisamos buscar fora o que já está dentro de nós. Valorizar o nosso mundo interior e a nossa vida, assim como ela se apresenta, é uma forma de parar a guerrra, de abrir o nosso coração í s coisas como elas são, e isso nos liberta, nos trazendo a serenidade que necessitamos a cada momento.


DN Viva – Para se alcançar um ní­vel de consciência plena o praticante precisa seguir quais passos? (fazer detalhar a ordem, se possí­vel).

Muitos passos são necessários, e de acordo com cada tradição são exaltados os passos a serem seguidos. De uma forma geral, é dito que para meditar é preciso:

1) parar;
2) acalmar;
3) relaxar
4) e concentrar.


DN Viva – Seu curso trata de Formação para os professores de Yoga, terapeutas e estudiosos em meditação. Você tem informações especí­ficas sobre o interesse dos cearenses para a prática da meditação? E no Brasil?

Este Curso para Formação em Meditação é destinado í  todos os que já conhecem a meditação e gostariam de passar essa ciência prática para outras pessoas com o objetivo de autoconhecimento e cura. Os motivos pelos quais as pessoas buscam esse Curso são de natureza puramente de auto-aperfeiçoamento e de se tornarem capazes (com instruções e técnicas) de auxiliar a humanidade.

Ensinar a meditar é estar comprometido com a evolução da consciência, com o despertar da paz no interior de cada um.


DN Viva – Você poderia explicar quanto ao papel da meditação no dia-a-dia das pessoas?

O papel da meditação no dia-a-dia das pessoas está relacionado com a diminuição do estresse, com o ato de fazer tudo o que se tem para fazer banhado de uma consciência plena de atenção e amorosidade. Não encontramos a felicidade enquanto a nossa mente está sempre ansiando pelo amanhã e remoendo o ontem. O viver o momento presente com sabedoria, serenizade e paz é o grande segredo da meditação. A meditação não está desvinculada do nosso dia-a-dia. Nossos atos refletem a nossa condição mental. Quando mudamos o estado de nossa mente, mudamos os nossos atos.




Entrevista concedida í  jornalista Giovanna Sampaio, Editora do suplemento semanal Viva, do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza (CE),
em setembro de 2003, para a matéria sobre meditação publicada em 28 de setembro de 2003.


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