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Mahashivaratri, a grande noite de Shiva

Shiva meditando no Monte Kailash
» pela Equipe do Vidya Mandir

Shiva é um dos deuses da Trimurti (Trindade) hindu, e simboliza o poder da destruição e da transformação. Os outros dois são Brahma, o Criador, e Vishnu, a força que mantém a Criação. Esses três são a manifestação de um único poder, sendo, portanto, inseparáveis.

Shiva é casado com Parvati, que representa Prakriti, a matéria. Isso mostra que o poder de destruição só pode se manifestar quando associado a algo perecível.

Como destruidor da ignorância (avidya), Shiva é representado meditando nas neves do Monte Kailash, no Himalaia. Sua postura simboliza a serenidade, a disciplina (sadhana) e o comando do corpo, dos órgãos de percepção (os sentidos) e da mente. A brancura da neve representa a mente sátvica, purificada – nem deprimida (tamásica), nem agitada (rajásica) – o que é necessário para se poder meditar.

Shiva representa não só o mais alto estado de perfeição humana (a plenitude da Sabedoria), como, também, os meios para alcançá-lo. Seus olhos estão entreabertos, mostrando que sua mente está absorta no Ser e seu corpo se relaciona com o mundo (completamente fechados indicariam total desligamento, e bem abertos, completo envolvimento com o mundo).

O estado meditativo também é simbólico. A meditação (dhyana) é a última porta para a Autorrealização. Para obtê-la, é preciso meditar. E, para poder meditar, é necessário uma mente pura. Shiva nos mostra que para purificar a mente é preciso ser um yogi, isto é, agir com total entrega dos frutos das ações ao Criador (Karma Yoga), neutralizando, assim, apegos (raga) e aversões (dvesha). Para ajudar nessa luta contra os apegos (ragas) e desejos, Shiva carrega seu Trishula, ou Tridente, simbolizando não só a destruição do ego e seus três aspectos de desejos (físicos, emocionais e mentais/intelectuais), mas, também, a transcendência dos três mundos (Bhur (inferior), o físico; Bhuvah (intermediário), o astral; e Swaha (superior), o causal), dos três Gunas (Sattva, Rajas e Tamas) e dos três períodos de tempo (passado, presente e futuro).

O Kamandalu, ou pote d’água, representa a renúncia (vairagya), o ascetismo, o viver com o mínimo necessário. As Rudraksas – sementes usadas para fazer japamalas – simbolizam Japa, a disciplina da repetição, e o Damaru – pequeno tambor -, o som e o fenômeno da Criação, do qual fazem parte a manutenção e a destruição. A Lua que lhe enfeita a cabeça representa não só as tendências e as transformações, mas, também, a mente ou o ego, todos usados como adornos, isto é, já não atrapalhando. O cabelo comprido mostra o seu Poder e todos os tipos de energia concentrados na busca do Autoconhecimento. O fato de estar emaranhado representa a austeridade (tapas). As cinzas simbolizam a queima da ignorância (avidya) e da ilusão (maya), com seus apegos e desejos.

Shiva “possui” um terceiro olho, na vertical, cujo poder de visão vai além dos olhos mortais (“vê por outro ângulo“). A visão do ser humano se limita às suas percepções, emoções e pensamentos, mas, ao transcender as limitações do corpo, mente e intelecto, reconhece o seu Ser, indicado pela “abertura” do terceiro olho.

O sábio (rishi) é aquele que conquistou o seu ego, representado pela serpente, que, agora, é apenas um “adorno” e, também, pela pele de tigre, que morreu de morte “natural” (no reconhecimento da sabedoria, a ignorância “naturalmente” morre), e na qual ele “senta”, pois o sábio não senta sobre o chão, mas, sim, sobre o seu corpo.

Em todos os meses, a noite anterior ao dia da Lua Nova é chamada Shivaratri, a noite de Shiva. Uma vez ao ano, no mês chamado Magha (fevereiro/março), há um dia e uma noite inteiros dedicados a Shiva, chamados Mahashivaratri. Esse dia é de orações, rituais e ascetismo, sendo também utilizado para a iniciação de Sannyasis, ou renunciantes, e para reafirmar propósitos de busca espiritual. No dia de Mahashivaratri são observados o silêncio e o jejum, além de outras práticas religiosas. Durante o dia são realizados rituais e à noite há um Arathi – ritual simples com fogo, cânticos e distribuição de Prasada, alimento oferecido (consagrado) e depois distribuído entre os participantes. Nos templos, o mantra OM Namah Shivaya (“OM, Saudações a Shiva”) é repetido numa corrente contínua até a meia-noite.

Nataraja é Shiva em pose de dança. Na noite de Mahashivaratri, ele larga o Trishula (Tridente) e dança tocando o Damaru (o pequeno tambor). A noite simboliza a ignorância do Ser, e a dança, o êxtase da Autorrealização, a aurora do Autoconhecimento. A Lua Cheia representa o preenchimento, a realização, o final do caminho, e a Lua Nova, um novo começo. Os últimos minutos da Lua Cheia representam esse preenchimento, e a Lua Nova, o “começo” dessa vida de plenitude.

O Trishula é para destruir todos os obstáculos que nos “separam” do Ser, e largá-lo mostra a nossa vitória. O Mahashivaratri celebra a vitória da Sabedoria sobre a ignorância do Ser e sobre o ego, e ajuda-nos a lembrar de Shiva e de tudo o que ele representa: a disciplina, a renúncia, a meditação, o esforço e a seriedade na busca espiritual. Englobando tudo isso, a destruição completa da ignorância (avidya), a dissolução do indivíduo no Total e a realização do SER.




Texto extraído do Informativo Vidya-Mandir de janeiro de 1990, do Vidyamandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, do Rio de Janeiro, em referência ao Mahashivaratri de 23 de fevereiro daquele ano, e digitado por Cristiano Bezerra em 18 de novembro de 2001.

Visite o site do Vidyamandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, da professora Gloria Arieira, em www.vidyamandir.org.br


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