Entrevista com Cristiano Bezerra em julho de 2006

DN Viva – 1. Fale um pouco de seu percurso profissional até chegar a ser Professor de Yoga. Seus interesses anteriores e trabalhos.
Cristiano – Desde 1990, quando eu tinha 18 anos e estava reiniciando o Ensino Médio (na época Segundo Grau), após ter ficado 2 anos e meio sem frequentar uma escola – e foi o intenso estudo e prática da filosofia do Yoga, a partir de julho de 1989, inicialmente através dos livros do Professor Hermógenes, que me trouxe o necessário equilíbrio emocional para superar o desconfortável sentimento de ansiedade fóbica (que até poucos anos atrás eu pensava que fosse o que há algum tempo se chama de “síndrome do pânico”, mas que certamente era a denominada “coisa” por Hermógenes em seu livro Yoga para Nervosos – o primeiro que li sobre Yoga, no final de 1988) e inadequação que eu tinha em relação ao sistema de ensino até hoje vigente, baseado numa visão racional e separatista que só visa o intelecto, deixando de lado a parte intuitiva e de sensibilidade do aluno -, que tomei a minha decisão pessoal de me dedicar profissionalmente ao ensino e divulgação do Yoga.
Entretanto, devido a inúmeros fatores, como a enorme carência de fontes de informações e conhecimento mais profundo e consistente acerca da filosofia e prática do Yoga (na época não havia internet, nem tantos livros, DVDs e CDs relacionados à cultura do Yoga como temos atualmente, e nem muito menos tantos cursos como os que vêm sendo ofertados nos últimos 5 anos em nossa cidade) e da minha própria imaturidade emocional, em 1992 me afastei desse caminho, para o qual retornei em 1999. Nesse ínterim, iniciei, em 1993, uma Graduação em Psicologia na UFC – Universidade Federal do Ceará, a qual abandonei no ano seguinte (e retomei também neste ano de 2006 esse meu outro caminho profissional, recomeçando uma nova Graduação nessa área, desta vez na Universidade de Fortaleza – UNIFOR), me dediquei, de 1992 a 1994, a um trabalho voluntário no Instituto Internacional de Projeciologia e trabalhei de 1994 a 1999 com marketing multinível.
Em 2001 (ano em que comecei a lecionar Yoga) e 2002 fiz minhas primeiras Formações em Yoga, as quais foram ministradas em Florianópolis pelo professor Pedro Kupfer, com quem desde então trabalho na edição do seu portal www.yoga.pro.br – fonte de estudos de Yoga, e cujo trabalho magnífico conheci em setembro de 1999, nas minhas primeiras buscas pela internet por informações acerca do trabalho do Professor Hermógenes, e assim cheguei a uma página desse portal contendo a transcrição de um prefácio de um livro de Pedro escrito por Hermógenes.
DN Viva – 2. Poderia explicar o porquê da escolha de viver e trabalhar com algo ligado ao desenvolvimento espiritual?
Cristiano – Sinto que fui movido pelo mesmo sentimento que levou o Professor Hermógenes a se convenver de que “felicidade não compartilhada, se não fosse um mito, seria furto ou parasitismo“, como ele bem colocou no início do prefácio de uma edição anterior do seu livro Autoperfeição com Hatha Yoga, o qual, por sua vez, foi um de meus primeiros mestres a partir de 1989.
Por outro lado, após ter lido no domingo passado (dia 23 de julho de 2006) a tua matéria Crianças e adolescentes desenvolvem espiritualidade, constatei que, o que hoje parece estar se tornando algo mais frequente, foi exatamente o que ocorreu comigo no final dos anos 80, no auge de minha adolescência: um forte sentimento de inadequação a esse velho paradigma teimosamente ainda vigente, visivelmente naufragante e que está destruindo a vida em nosso planeta.
Muito resumidamente, o que posso dizer que mais me motivou a escolher ingressar e persistir nesse caminho de não só viver mas principalmente trabalhar com algo ligado ao desenvolvimento espiritual, no meu caso através do caminho do Yoga e do Vedanta, é a necessidade urgente de dar a minha pequena e modesta contribuição pessoal na construção de um mundo melhor, dentro deste novo paradigma emergente (que de novo não tem nada, mas somente aqui no Ocidente, pois o que vejo é um renascimento da multimilenar cultura vêdica oriental, apenas com uma nova roupagem, multifacetada e adaptada aos nossos dias), fundamentado, como você bem colocou no domingo passado, na espiritualidade, não em termos religiosos, mas de interiorização desde cedo de uma ética da vida, como diz o educador indiano Sri Sathya Sai Baba, baseada em valores verdadeiramente humanos. E hoje, para isso, conto com o ágil recurso da informática e da internet, através do meu website, o Ekadanta Yogashala (uma escola virtual de Yoga), para dinamizar e acelerar esse processo de dar um suporte também para os “adultos de amanhã”.
DN Viva – 3. De quais grupos você participa hoje? Quantas pessoas fazem parte desses grupos? Esclareça a finalidade de cada um.
Cristiano – Além das minhas aulas semanais de Hatha e Power Yoga no Espaço Clara Luz e dos vários cursos intensivos de Yoga e Vedanta que promovo com professores vindos das regiões Sul e Sudeste do nosso país e também do exterior, coordeno dois grupos de estudo de Vedanta, respectivamente no próprio Clara Luz e no Instituto Indiano de Yoga Vivekananda, os quais contam com uma média de 15 participantes a cada encontro semanal.
A prática de Yoga visa fundamentalmente preparar o corpo e a mente do estudante para a meditação e para o conhecimento de si mesmo, que é o objeto de estudo do Vedanta, ou seja, o conhecimento do Ser pleno essencial, livre de quaisquer limitações, que já é cada um de nós.
Também faço parte da comunidade de vegetarianos em Fortaleza, a qual vem começando a se organizar para a criação de um grupo local da SVB – Sociedade Vegetariana Brasileira.
DN Viva – 4. Você possui religião? O que acha das religiões hoje? E do fanatismo?
Cristiano – Não, mas sim uma religiosidade, ou, melhor dizendo, uma espiritualidade universalista. Considero que todas as religiões são caminhos válidos que vão levar seus seguidores a um mesmo fim, ou seja, ao conhecimento e realização do mesmo Deus, que é Uno sem um segundo. Vejo o fanatismo como um fruto da ignorância desse princípio fundamental de universalidade, ou de Unidade na diversidade, do Divino, bem como uma consequência do egoísmo e egocentrismo de seus praticantes, que erroneamente julgam que somente a sua religião e a sua verdade são as melhores e únicas. Sou devoto do líder espiritual indiano Sri Sathya Sai Baba, o qual preconiza não a criação de uma nova religião, mas a integração e respeito mútuo entre todas as religiões, reconhecendo que há somente uma única religião, que é a Religião do Amor!
DN Viva – 5. Você tem sido um facilitador para um grande público de Fortaleza na aproximação de vários mestres que lidam com a espiritualidade em alguma dimensão. Como tem sido esse trabalho?
Cristiano – Ainda tem sido um trabalho árduo – mas também gratificante! – pois aqui, na região Nordeste em geral e no nosso estado do Ceará em particular, lidamos não só com um expressivo atraso cultural como também com uma precária e perversa distribuição de renda, o que tem dificultado o acesso de significativa parcela dessa população interessada em participar desses nossos eventos culturais. Mas tenho procurado persistir firme e inabalavelmente nesse caminho, fazendo um modesto trabalho de formiguinha, na perspectiva e esperança de dias melhores, nos quais todos os seres possam de alguma forma se beneficiar.
DN Viva – 6. Fale um pouco dos mestres que você trouxe para Fortaleza (agora Krishna Das) e do sentimento que possui em ser um colaborador dessas promoções.
Cristiano – Desde 2001 tenho procurado trazer para a nossa cidade professores de diversas procedências (especialmente do Sul e Sudeste do nosso país e também do exterior) e linhas de Yoga, com o intuito de enriquecer a nossa cultura yogika local e inserir Fortaleza no circuito internacional dessa multimilenar e multifacetada tradição cultural de origem indiana. Nesse contexto, destaco os eventos com Pedro Kupfer e Maria Laura Packer, que têm vindo para cá com maior frequência. Com isso, revitalizamos a prática do Hatha Yoga, da Meditação e do Vegetarianismo, trazendo novas modalidades de Hatha Yoga, como o Ashtanga Vinyasa Yoga, Iyengar Yoga e Power Yoga, além de abrir caminhos para o Yoga Integrativo. A partir desse movimento, dezenas de praticantes daqui se motivaram a fazer Cursos Livres para Formação em Yoga, principalmente em Santa Catarina, e neste mês de julho estamos finalizando a primeira turma do nosso Curso Livre para Formação de Instrutores de Yoga coordenado e ministrado por Maria Laura Packer, de Joinville, SC. Desde 2003 nós temos revitalizado o ensino do Vedanta, através do ensino a distância baseado em material didático do Vidya Mandir – Centro de Estudos de Vedanta e Sânscrito, da professora Gloria Arieira, do Rio de Janeiro, e neste mês de setembro teremos um primeiro encontro presencial com ela em um curso intensivo de Vedanta. E o coroamento desses meus primeiros 5 anos de trabalho com eventos de Yoga é sem dúvida essa grande celebração que será o Satsang com Mantras e Kirtans com o cantor americano Krishna Das, que tem se apresentado por todo o mundo, como América do Norte, Europa e Oceania, e nesta sua segunda vinda ao Brasil (no ano passado foi somente para o Sul e Sudeste) virá pela primeira vez a Fortaleza, em única apresentação no Norte/Nordeste, trazendo para nós a rica tradição do Bhakti Yoga, o Yoga devocional ou do coração, que vem reforçar o novo modelo educacional propagado por Susan Andrews e Sri Sathya Sai Baba, voltado não somente para a mente racional, mas também para o coração.
O sentimento que possuo em ser um agente catalisador da vinda desses professores e yogis a Fortaleza é de uma grande satisfação interior, por estar dando a minha parcela de contribuição para o enriquecimento da nossa cultura yogika local, ajudando com isso também na elevação e aprofundamento das consciências dos praticantes e professores de Yoga, além do público interessado em geral, bem como do nível de nosso saber coletivo. Me sinto interiormente muito bem em estar fazendo aquilo que eu gostaria ou esperava que os que me antecederam nesse caminho aqui em nossa cidade já estivessem fazendo desde os anos 80, por exemplo, pois, quem sabe, se isso estivesse sendo feito de alguma forma, ou seja, se estivesse havendo um movimento mais expressivo de fortalecimento e expansão da cultura do Yoga por aqui, bem como um incentivo ao seu estudo e principalmente prática, eu não tivesse me distanciado por 7 anos desse caminho, e, dessa forma, me felicito por talvez estar colaborando de alguma maneira para que outros não se afastem de sua jornada de crescimento interior e autoconhecimento através do Yoga e do Vedanta. Como dizia o Mahatma Gandhi, “seja você a mudança que você quer ver no mundo“!
(Entrevista concedida à jornalista Rose Mary Bezerra, do caderno Viva do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, CE, no dia 24 de julho de 2006, segunda-feira, para a matéria publicada nas páginas 1 e 2 da edição do dia 30 de julho de 2006, domingo, desse caderno, em três partes: Emergência das tribos, Grupos ajudam a manter sobriedade e Mantras.)















