Entrevista com Cristiano Bezerra em dezembro de 2002
DN Viva – 1. Fale um pouco de sua prática de Yoga desde o princípio. Qual a modalidade com que iniciou? Foi o Hatha Yoga? E com que idade?
Tive meu primeiro contato com o Yoga aos 17 anos, através da leitura do livro Yoga para nervosos, best seller escrito pelo professor Hermógenes na década de 60 e que foi pioneiro na aplicação da prática de técnicas do Yoga no tratamento da síndrome do pânico, da qual eu sofria na adolescência (e que, diga-se de passagem, naquele final de anos 80 nem se conhecia por essa expressão tão em voga atualmente, que eu só vim começar a ouvir falar de uns poucos anos para cá), o que na época me fez interromper meus estudos colegiais. Busquei a filosofia e a prática do Yoga como uma solução para sair dessa crise existencial (como eu chamava na época) e ter melhores condições psicológicas para retornar ao ambiente colegial, no que fui muitíssimo bem sucedido, com uma resposta praticamente imediata, pois 3 meses após o início de minha prática de Hatha Yoga, que se deu em julho de 1989, ao completar 18 anos, simultaneamente através da disciplinada prática diária em casa orientada pelos livros Yoga para nervosos e Autoperfeição com Hatha Yoga, ambos do referido professor, e da prática regular, 2 vezes por semana, no Instituto de Yoga Vivekananda, da professora indiana Ved Kumari Arora, recuperei o equilíbrio emocional e o gosto pelos estudos, retornando ao colégio no início do ano seguinte, após ter ficado por 2 anos e meio afastado.
DN Viva – 2. Como foi que descobriu o Ashtanga?
Foi através do trabalho dos meus professores Camila Reitz e Pedro Kupfer, de Florianópolis, SC, que conheci inicialmente através da internet, em setembro de 1999, pelo website www.yoga.pro.br. Ao longo do ano 2000, quando passei a me corresponder eletronicamente e desenvolver uma amizade com ambos a partir de abril, fui me esclarecendo a nível teórico, através dos textos publicados nesse website, a respeito desse intenso método de Hatha Yoga. A partir do segundo semestre daquele ano eles começaram a realizar Cursos Intensivos sobre o assunto em Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro, época em que fiz meu convite ao Pedro para que viesse a nossa cidade para fazer o mesmo por aqui. Em junho de 2001 isso finalmente veio a se concretizar, contanto inclusive com uma excelente matéria de capa no caderno Viva, e juntamente com 30 outras pessoas participantes tive meu primeiro contato prático com o Ashtanga Vinyasa Yoga, que confesso não ter gostado de início, pois é extremamente diferente do método de Yoga que eu estava acostumado a praticar e ensinar em minhas aulas. Mas como já estava com passagem comprada e inscrição efetuada para participar de minha primeira Formação Livre em Yoga com ele e sua esposa Camila, 2 semanas depois, ao longo de todo o mês de julho do mesmo ano, em Florianópolis, me decidi a superar esse desafio de aprender a gostar e a ver os aspectos positivos dessa modalidade, tentando incorporá-la à minha prática pessoal e quem sabe vindo a trabalhar, em caráter pioneiro, com o ensino da mesma em nossa cidade. Me encantou imensamente a perspectiva de enriquecer a nossa cultura yogi local, trazendo novos conteúdos práticos e metodológicos de outras modalidades, como essa desenvolvida no sul da Índia a partir da década de 1930, na cidade de Mysore, estado de Karnataka, sul da Índia, e que desde os anos 70 se espalhou pela Europa e Estados Unidos, somente chegando ao Brasil no finalzinho da década de 90. Olhando para trás, acho que valeu muito a pena, pois ao longo desse primeiro mês lá em Floripa acabei me apaixonando por esse método, apesar da minha imensa resistência inicial, e trazendo para Fortaleza, a partir do mês de agosto de 2001, uma alternativa para aqueles que querem praticar Yoga numa abordagem mais dinâmica, intensa e exigente, tanto física quanto mentalmente.
DN Viva – 3. Qual o diferencial desta modalidade para as demais? Parece que exige uma maior intensidade físico-respiratória do praticante. É isso?
O Ashtanga Vinyasa Yoga é uma modalidade de Hatha Yoga que se utiliza dos mesmos ásanas (posturas psico-físicas), só que numa sequência fluida e sem intervalos, dividida em seis séries fixas (atualmente trabalhamos aqui em Fortaleza somente com uma introdução à primeira série, chamada Yoga Chikitsa, ou Yogaterapia, em sânscrito, visto que nosso público ainda é muito iniciante, em função do pouco tempo que tivemos (quase um ano e meio). Além dos ásanas, trabalhamos nesse método simultaneamente com outras técnicas do Hatha Yoga, harmonizando os cinco elementos. Através da estabilidade e firmeza dos ásanas trabalhamos com o elemento terra; da fluidez nos movimentos coordenados com a respiração (os vinyasas) trabalhamos com o elemento água. Mediante o intenso calor interno gerado pelos bandhas (contrações internas dos esfíncteres e do baixo ventre) trabalhamos com o elemento fogo. Através do contato com a respiração sussurrante, chamada ujjáyi pránáyáma, trabalhamos com o elemento ar. E, finalmente, atráves das fixações ou convergências oculares, os drishtis, trabalhamos com o elemento éter, ou espaço. Essa riqueza de componentes técnicos praticados simultaneamente é que torna esse método o mais exigente no plano psicofísico de todos os que se conhecem hoje em dia, pois não só trabalha o físico, exigindo uma harmonia entre força, equilíbrio, alongamento e flexibilidade, mas principalmente a mente, exigindo muita atentividade mental, com 100% de atenção total e presença plena no que se faz no momento presente, no aqui e agora. É praticamente uma meditação em movimento. Essa prática visa a preparar o praticante para a meditação, ao fortalecer a atenção e concentração meditativa.
DN Viva – 4. A que você credita o boom atual do Ashtanga?
O fato de as pessoas que são mais dinâmicas e apreciadoras de desafios terem encontrado nessa modalidade uma alternativa muito mais instigante e completa, em alguns aspectos, do que algumas outras modalidade de Yoga. Ou mesmo de muitas atividades físicas, as quais só ficam no nível mais denso, do corpo, não alcançando de forma alguma as dimensões energética (sutil), emocional, mental e espiritual.
E é por isso que Yoga (e principalmente o Ashtanga Vinysa) não tem nada a ver com Educação Física, por exemplo.
É sempre bom lembrar que o Ashtanga Vinyasa Yoga não é a modalidade mais completa do mundo, nem a mais antiga e nem a melhor. É apenas mais uma forma diferente de se praticar Yoga.
Vejo que essa intensa modalidade veio preencher uma lacuna (aqui no Brasil, por exemplo) para as pessoas que não se sentiam atraídas pela prática do Yoga, por talvez a acharem demasiado lenta e parada.
DN Viva – 5. É um novo modismo?
De forma alguma, visto que aqui no Ocidente essa modalidade já vem sendo praticada consistentemente há mais de 30 anos, como na Europa, Austrália e América do Norte. Talvez para os que vendam (e os que comprem) esse método (aqui no Ocidente, em geral…) como apenas mais uma modalidade de alongamento, no caso de origem indiana, isso venha a ser mesmo um modismo passageiro, como, por exemplo, muita coisa em nossa cidade vem e depois passa, como uma febre. Entretanto, para os que incorporaram no coração a filosofia e a ética do Yoga, o Ashtanga Yoga é mesmo uma filosofia e uma maneira de viver que veio para ficar e transformar definitivamente nossas vidas, nos levando ao objetivo maior do Yoga, que é o auto-conhecimento, a auto-realização e libertação espiritual.
DN Viva – 6. Você vê essa modalidade como uma adaptação do Yoga para o mundo ocidental, que tem o corpo mais penalizado (pelo sedentarismo) e a mente muito tagarela?
De modo algum, muito pelo contrário, pois esse método foi desenvolvido na década de 1930 por um dos últimos grandes mestres hindus da tradição do Hatha Yoga, o Sri Tirumalai Krishnamacharya (1888-1989), que o transmitiu para seu discípulo Sri K. Pattabhi Jois (1915-), hoje com mais de 87 anos, e que ainda continua ensinando rigorosamente o mesmo método original, sem concessões, tendo a continuidade de sua filha, Saraswati Rangaswami, e seu neto, Sharat Rangaswami.
É bom lembrar e enfatizar que os primeiros ocidentais que vieram a ter os primeiros contatos com esse método somente chegaram a Mysore, no sul da Índia, onde sempre morou Sri K. Pattabhi Jois, no final da década de 1960 e início da década de 1970. Ou seja: tenho a impressão de que a última coisa em que pensaram os desenvolvedores dessa modalidade, Krishnamacharya e seu discípulo Pattabhi Jois, foi nos ocidentais. Durante os mais de 30 anos iniciais de prática e ensino desse intenso, exigente e desafiante método de Hatha Yoga, o mesmo somente foi ensinado basicamente para os próprios indianos, buscadores de uma preparação mais intensa para a prática da meditação.
Talvez os casos mais bem sucedidos e felizes de adaptações do Yoga para o mundo ocidental (e que foram feitas com esse objetivo, diferentemente do Ashtanga Vinyasa Yoga), no meu entendimento, sejam os sistemas Vinyoga, desenvolvido por T.K.V. Desikachar, filho de Sri T. Krishnamacharya, e o Hatha Yoga desenvolvido pelo professor B.K.S. Iyengar, outro discípulo de Krishnamacharya, que desenvolveu a utilização de props (cadeiras, bloquinhos de madeira, cintos, faixas, almofadões, cobertores, etc), para facilitar o acesso mais confortável dos ocidentais mais sedentários e fisicamente limitados, por exemplo, aos ásanas do Yoga. Nós por enquanto ainda não dispomos do ensino desses métodos aqui em nossa cidade, aguardando que alguém se disponha a introduzí-los por aqui.
Que eu saiba, até hoje somente existem dois professores, ambos em Aracaju, SE, ensinando o Iyengar Yoga, como ficou internacionalmente conhecida essa modalidade de Hatha Yoga, em toda a nossa região Nordeste.
Pessoalmente continuo disposto a continuar organizando uma média de 5 a 6 cursos intensivos por ano, com professores vindos das regiões Sul e Sudeste, que tenham novos conteúdos culturais yogis para nos transmitir e enriquecer nosso saber e compreesão da vastíssima e multimilenar cultura do Yoga.
DN Viva – 7. Qual sua meta pessoal com a disciplina do Yoga?
A longo prazo, alcançar, através do auto-conhecimento, a minha auto-realização e libertação espiritual, através da iluminação, ou samádhi. E, a curto prazo, elevar e manter o meu nível de saúde, energia, disposição, vitalidade e longevidade para realizar o máximo que me for possível ainda nesta existência, para não deixar muito ainda o que fazer nas próximas (e que ainda não hajam muitas mais pela frente…).
No meio desse contexto, tenho também a meta pessoal de compartilhar ao máximo, dentro do meu limitado alcance, esse saber dessa cultura multimilenar para o maior número possível de pessoas, para que mais e mais delas possam se beneficiar em suas vidas desse rico caminho existencial.
Nesse sentido, venho, às sextas-feiras, fazendo um trabalho social com o Yoga, dando aulas introdutórias de Ashtanga Vinyasa Yoga no Lar Fabiano de Cristo – Casa de Maria Alice (Av. Eng. Santana Jr. 699, Papicu) para dois grupos (um pela manhã e outro à tarde) de pré-adolescentes, na faixa de 10 a 14 anos, pertencentes a famílias de baixa renda da Favela Verdes Mares e demais comunidades carentes do bairro Papicu, num projeto de Karma Yoga incentivado pelos meus professores Camila Reitz e Pedro Kupfer, de levar o Yoga a todos os lugares e camadas da sociedade, melhorando a qualidade de vida daqueles que não têm a chance de levar uma vida normal como a nossa.

(Entrevista concedida à jornalista Rose Mary Bezerra, do caderno Viva do jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, CE, em dezembro de 2002.)














