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A teoria da invasão ariana é um trote

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II – A questão do final

4) Cataclismo e reconstrução


O verdadeiro motivo do desaparecimento dos harappianos não foi a invasão ariana, como acreditaram os estudiosos do século XIX, já que tal invasão jamais aconteceu. Alguém poderia argumentar que essa é a versão dos vencedores, que os Vedas foram escritos pelos invasores e que isso não passa de uma manobra política pró-aria. A força dos paradigmas é tão incrível que, às vezes, nos impede até mesmo de reconhecer as constatações da própria realidade. Não se trata mais de uma teoria confrontada com outra, mas de uma teoria, hoje notadamente inconsistente, confrontada com os fatos.

Para responder essa pergunta, preferimos nos remeter às evidências que a ciência nos mostra. Ignorar certos fatos é tirar da Índia o direito de ser reconhecida como berço de uma das maiores civilizações do mundo antigo. Eis aqui um exemplo da visão preconceitosa e eurocentrista: “Uma civilização como a do Indus não pode conceber-se como um fenômeno de crescimento lento e paciente. As suas vitórias, tal como seus problemas, foram de tipo repentino; e a nossa procura de uma ancestralidade material e sistemática para a civilização do Indus pode ser uma longa e sutil procura e, afinal, de importância secundária.” Sir Mortimer Wheeler, O Vale do Indus, p. 64.

Aqui Sir Mortimer desestima o que para indianos e paquistaneses é tão importante: a própria identidade nacional. Sabemos hoje que a verdade não é bem assim. Esse esquema somente entra nas cabeças dos intelectuais. A nova geração de jovens arqueólogos indianos busca a existência de vida urbana na Índia em épocas antes insuspeitas. Para isso, não lhe interessam os artefatos, os catálogos ou até mesmo as medições do tempo. A diferença com os europeus do tempo da ocupação inglesa é notória, porque estes partem do presuposto de que os harappianos são tributários das civilizações mesopotâmica e egípcia e reduzem sua função como historiadores a catalogar artefatos, estimando sua datação.

Colin Renfrew, historiador e catedrático de arqueologia na Universidade de Cambridge, mostra coragem ao revelar o que está por trás dessa forma tendenciosa de contar a História: “A forma habitual de pensar os grupos humanos, de assumir que é correto diferenciá-los como “povos” separados, é em grande medida um legado do século XIX. Em certa medida, deriva dos historiadores e geógrafos clássicos, que tendem a acreditar que seus próprios conceitos de etnicidade ou de “nação” independente podiam facilmente projetar-se àquelas outras terras, às vezes remotas, que estavam descrevendo. No século XIX e também antes, os viajantes europeus adotaram, em muitos aspectos, uma visão muito parecida à dos clássicos sobre esse “outro mundo”, além do próprio. Além do mundo civilizado haviam terras estranhas, povoadas por tribos bárbaras, de fala rude, que era necessário classificar, nomear, dividir em grupos para poder, de alguma forma, etiquetá-los e, por conseguinte, manipular e, evidentemente, governar.” Arqueología y Lenguaje, p. 229.

Estudos recentes feitos a partir de imagens do Landsat (satélite de observação terrestre que registra a radiação eletromagnética refletida pela Terra) revelam três catástrofes meteorológicas e geomorfológicas que abalaram definitivamente essa civilização: inundações sucessivas na bacia do rio Indus; uma seca de 300 anos que esgotou o Sarasvati por volta do ano 1900 a.C. e mudou irreversivelmente o curso de vários outros; e transformações bruscas e de grande amplitude na crosta terrestre na região.

Cerca de 75% dos sítios arqueológicos harappianos (foram descobertos mais de 2500!) encontram-se ao longo do leito seco do rio Sarasvati, que foi identificado como um dos mais caudalosos do continente eurasiático, havendo tido um papel importantíssimo no desenvolvimento da civilização vêdica. Antigamente esse rio recebia as águas do Ganges, do Yamuná e do Sutlej, cujos cursos eram muito diferentes dos atuais.

Aparecem no Rig Veda nada menos que sessenta menções a esse rio, enquanto o Ganges é mencionado apenas uma vez. A pergunta é: por que não pôde um império tão rico se sustentar? Terá a sua ruína sido provocada pelo homem ou pela Natureza? Entre as causas climáticas menciona-se a grande seca, provavelmente de mais de trezentos anos, que aconteceu no início do segundo milênio a.C.

Também aconteceram profundas transformações hidrográficas na área devido ao avanço da placa tectônica indiana sobre a iraniana, a arábica e a eurasiática, em direção ao Himalaya, o que provocou o desaparecimento do rio Saraswatí e inversão no curso de outros, assim como também diversos terremotos e ondas sísmicas que semearam a destruição na bacia desses rios e na região costeira.

Como a seca afetou a estrutura econômica das cidades? Declinação urbana significa igualmente queda da rede econômica que sustenta a própria vida urbana com todas suas instituições. Porém, um império não pode cair num dia só. A emigração destas populações deu-se aos poucos, em pequenos grupos que se deslocavam rapidamente, levando consigo sua cultura e suas riquezas, e que acabaram estabelecendo-se na planície gangética.

Não migraram acossados pela fome ou a necessidade, mas procurando um novo espaço para viver. Comprovou-se que esta emigração rápida não implicou uma diminuição da população, o que mostra que esta era uma cultura habituada a enfrentar emergências e estava bem preparada para isso. O que aconteceu com o comércio terrestre?

Este morreu – e junto com ele o comércio marítimo – por causa do desastre produzido na divisória de águas indo-gangética, que produziu profundas mudanças geomórficas na região. Imagens do Landsat mostram que o rio Sutlej, que uma vez fora afluente do Saraswatí, transformou-se em tributário do Indus. Isso inundou toda a área povoada do vale do Saraswatí. A terra mudou de forma.

Não se pôde continuar plantando, nem produzindo, nem comerciando. A partir de 1900 a.C., a civilização harappiana entra em declínio. As razões desta decadência são variadas: por um lado, a ameaça constante das inundações anuais provocadas pelas monções e o degelo dos Himalayas exigiam contínuas obras de engenharia que podem ter acabado por fatigar os habitantes. Qualquer descuido na manutenção dos diques de contenção ou fraqueza na sua estrutura poderia provocar catástrofes fatais.

Sir Mortimer Wheeler fala ainda da devastação florestal da área circundante às cidades. A queima das árvores utilizadas para cozer os tijolos deve ter desertificado a região ao longo dos séculos, com a conseqüente diminuição das chuvas. Isto não foi bem assim. Expertos em paleohidrologia (R. L. Reykes e Dyson) concluíram na década de 1960 que esta teoria do desmatamento não é convincente. Estudos de campo indicam que somente 400 acres de selva ao longo do Indus teriam sido suficientes para produzir a madeira necessária para cozer todos os tijolos usados em Mohenjodaro durante um espaço de tempo de 1000 anos.

Durante o período de migração, que coincide com o início da desertificação do vale do rio Saraswatí, provocada pelo movimento das placas tectônicas, entre 1900 e 1500 a.C., as populações estabelecidas na área foram transladando-se gradativamente para o vale do Ganges, onde deram prosseguimento à sua forma de vida. Paralelamente, surgem as primeiras Upanishads, Brahmánas e Áranyakas, textos sagrados onde se assentam as bases do Yoga, que, junto com os Vedas, formarão o corpo da literatura revelada dos hindus, o Shruti (“revelação”), pois, quando uma civilização sente que seu patrimônio cultural está em perigo, apressa-se para dar-lhe forma e registrá-lo.

O árduo trabalho que implicaram esses novos assentamentos numa cultura habituada a um alto nível de vida urbana coincide com a aparição dos Shastras. Esta simultaneidade é reveladora, porque aqui é categórico o peso das tradições orais. Também o é a consciência e identidade cultural, que torna-se evidente na profusão e diversidade de Shastras. Para realizar estas tarefas, já tinham criado todas as ferramentas necessárias. Pois tudo estava neles: a força para reconstruir e a convicção para conservar seu legado.

No período imediatamente posterior, até o s. III a.C., definiram-se as bases do hinduísmo e da moderna nação indiana. O rio Ganges foi testemunha do surgimento dos códigos de lei (dharma), o sistema de castas, os seis sistemas ortodoxos de filosofia (darshanas) e numerosos Shastras (escrituras), como os Tantras, Ágamas e Samhitás, que deram início ao período chamado Smriti (“memória”), da tradição, assim como também as duas grandes heresias do hinduísmo: budismo e jainismo, que acabariam por sua vez por influenciar as próprias instituições hindus.

As cidades-estado da planície gangética foram palco de sucessivas invasões ao longo do tempo: os persas do rei Dario irromperam em 520 a.C., os gregos penetraram no sub-continente vindos da Pérsia (Irã) em 334 a.C., os hunos invadiram pelo nordeste em 350 d.C., os muçulmanos comandados por Muizzudin de Ghazni em 1175, e, finalmente, os portugueses, franceses e ingleses a partir do s. XVI.

História do Yoga




Pedro Kupfer

Texto extraí­do das páginas 87 a 102 da edição, de janeiro de 2000, do livro História do Yoga (1997), de Pedro Kupfer (Fundação Dharma, Florianópolis).

Visite o site do Pedro em www.yoga.pro.br

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